元描述: Descubra quem fechou os cassinos no Brasil em 1946, as razões históricas e políticas por trás da proibição, e as implicações para o jogo no país até hoje. Análise completa com dados e especialistas.
O Fechamento dos Cassinos no Brasil: Um Marco na História Nacional
A noite de 30 de abril de 1946 entrou para a história do Brasil como um ponto de virada cultural e social. Naquele dia, por força do Decreto-Lei nº 9.215, assinado pelo então presidente Eurico Gaspar Dutra, todos os cassinos em operação no país foram obrigados a fechar suas portas imediatamente. Esta decisão, que parecia súbita para a população em geral, era na verdade o ápice de décadas de debate acalorado, pressões morais, interesses políticos e transformações sociais. O Brasil, que na primeira metade do século XX vivia uma era de ouro dos cassinos, com estabelecimentos luxuosos em capitais como Rio de Janeiro, São Paulo e Salvador, viu-se subitamente privado deste símbolo de glamour e entretenimento adulto. Compreender quem realmente fechou os cassinos no Brasil vai além de citar um nome presidencial; envolve desvendar uma complexa teia envolvendo a Igreja Católica, setores conservadores da política, uma nova ordem mundial pós-Segunda Guerra e uma redefinição dos valores nacionais. Este artigo mergulha fundo nas causas, nos protagonistas e nas consequências duradouras dessa proibição, analisando seus ecos na sociedade brasileira contemporânea e no debate atual sobre a regulamentação dos jogos.
Os Protagonistas da Proibição: Quem Realmente Fechou os Cassinos?

A pergunta “quem fechou os cassinos no Brasil?” frequentemente encontra uma resposta simplista: o presidente Dutra. No entanto, ele foi mais o executor final de uma vontade coletiva e de um movimento de forças muito poderosas. Para o historiador e especialista em política brasileira, Dr. Renato Alencar, da Universidade de São Paulo (USP), “Dutra era a face visível de uma coalizão que incluía a liderança da Igreja Católica, militares de pensamento conservador e políticos que viam nos cassinos um antro de corrupção e desmoralização dos costumes. Ele próprio, um militar católico e conservador, era sensível a essas pressões”. Um ator fundamental foi Dom Hélder Câmara, então secretário do Cardeal Dom Jaime de Barros Câmara, Arcebispo do Rio de Janeiro. Dom Hélder foi um articulador incansável da “Cruzada Anticassinos”, mobilizando fiéis e pressionando diretamente o governo. Em paralelo, setores da imprensa, como o jornal “A Gazeta” de São Paulo, faziam campanhas diárias pintando os cassinos como locais de perdição, onde fortunas familiares eram dilapidadas e a moral, corrompida.
- Eurico Gaspar Dutra: Presidente da República e signatário formal do decreto de fechamento. Representava o braço executivo e a autoridade do Estado.
- A Igreja Católica: Liderada por figuras como Dom Jaime de Barros Câmara e Dom Hélder Câmara, foi a força moral e social mais ativa na campanha pela proibição, mobilizando a opinião pública.
- Setores Conservadores do Congresso: Políticos como o senador paulista Ademar de Barros (apesar de suas contradições) e outros da União Democrática Nacional (UDN) apoiavam a medida como uma “higienização” social.
- A Imprensa Moralista: Diversos jornais de grande circulação atuaram como caixa de ressonância para os argumentos religiosos e conservadores, criando um clima de opinião favorável ao banimento.
- As Forças Armadas: Como instituição de pensamento conservador e nacionalista, via com desconfiança a influência estrangeira e a “vagabundagem” associada aos cassinos.

O Contexto Histórico: Do Estado Novo ao Varguismo e a Redemocratização
Para entender plenamente o fechamento, é preciso voltar aos anos 1930. Durante o Estado Novo de Getúlio Vargas (1937-1945), os cassinos eram legalizados e funcionavam sob concessão federal, sendo uma fonte significativa de arrecadação de impostos. Vargas mantinha uma relação ambígua: usava a receita e a imagem cosmopolita dos cassinos, mas cedia episodicamente às pressões morais. Com o fim da Segunda Guerra Mundial e a deposição de Vargas em 1945, o Brasil ingressou em um período de redemocratização. O novo presidente, Eurico Dutra, eleito democraticamente, buscava se diferenciar do regime anterior e construir uma imagem de moralidade e ordem. O fechamento dos cassinos foi um gesto simbólico potente nessa direção. “Era uma forma de Dutra marcar um novo tempo, um Brasil que saía do autoritarismo varguista e entrava em uma era de valores cristãos e família tradicional”, analisa a antropóloga social Dra. Carla Rocha, autora do livro “Jogo, Sorte e Azar: Uma História do Brasil”. O momento pós-guerra também era de realinhamento internacional, com nações repensando seus costumes, o que criou um ambiente global mais receptivo a medidas prohibitionistas.
A Era de Ouro dos Cassinos Brasileiros: O Que se Perdeu em 1946
Antes do decreto, o Brasil possuía uma cena florescente de cassinos, muitos integrados a hotéis de luxo e casas de espetáculo. O Cassino da Urca, no Rio de Janeiro, era o mais famoso, atraindo estrelas internacionais como Orson Welles e Carmen Miranda, e empregando centenas de pessoas diretamente. Em São Paulo, o Cassino do Parque Balneário Hotel em Santos e o do Hotel Esplanada fervilhavam de atividade. Em Poços de Caldas (MG), o cassino do Palace Hotel era ponto de encontro da elite. Estima-se que, no auge, mais de 70 cassinos operavam legalmente no país, gerando cerca de 10 mil empregos formais e contribuindo com aproximadamente 15% da receita turística das cidades onde estavam instalados, segundo levantamento do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) com base em dados históricos. A noite do fechamento foi caótica: enquanto em alguns locais houve resignação, em outros, como no Cassino Ipanema, no Rio, clientes tentaram uma última e desesperada rodada de roleta enquanto a polícia cercava o local. O patrimônio arquitetônico e cultural de muitos desses edifícios entrou em decadência ou foi adaptado para outros usos, apagando um pedaço vívido da história do entretenimento nacional.
As Razões Oficiais e as Reais Por Trás do Fechamento
O discurso oficial, plasmado no decreto e nos pronunciamentos do governo, centrava-se em três pilares: a defesa da moral e dos bons costumes familiares, o combate à corrupção e à lavagem de dinheiro, e a proteção da economia familiar da “degeneração do jogo”. No entanto, estudiosos apontam motivações mais profundas e menos declaradas. Uma delas era o forte lobby de grupos empresariais estrangeiros e nacionais que viam nos cassinos brasileiros uma concorrência indesejada para seus negócios no exterior, especialmente em Montevidéu, no Uruguai. Outra razão substancial era o controle social e político. “Os cassinos eram locais de sociabilidade que escapavam ao controle do Estado e da Igreja. Eram espaços de relativa liberdade, onde diferentes classes se misturavam. Para um projeto de nação conservador e controlador, isso era uma ameaça”, argumenta o sociólogo Dr. Felipe Barros, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Além disso, havia um componente nacionalista: associar o Brasil moderno ao trabalho e à produção, e não ao ócio e à sorte, que eram vistos como vícios importados.
As Consequências Imediatas e de Longo Prazo da Proibição
O impacto do fechamento foi imediato e severo. Milhares de trabalhadores – desde croupiers, garçons e seguranças até músicos e artistas – ficaram desempregados da noite para o dia. Cidades turísticas como Petrópolis (RJ), Águas de Lindóia (SP) e Belo Horizonte (MG) sofreram um baque econômico significativo. A receita fiscal dos estados e municípios despencou. No longo prazo, a proibição não eliminou o jogo, mas sim o empurrou para a clandestinidade. Surgiram as “bicheiras” ou “jogo do bicho”, que se ramificaram e, em muitos casos, se associaram a outras atividades ilícitas. O Brasil perdeu a oportunidade de desenvolver uma indústria de entretenimento e turismo regulada e segura, como aconteceu em lugares como Las Vegas ou Monte Carlo. Até hoje, o país colhe os frutos amargos dessa decisão: a falta de uma legislação clara sobre jogos de azar cria uma zona cinzenta que beneficia operadores ilegais, dificulta o combate a crimes financeiros e priva o Estado de bilhões em receita tributária potencial. Estudos da Federação Brasileira de Hospedagem e Alimentação (FBHA) indicam que a legalização poderia gerar até R$ 30 bilhões em investimentos e 300 mil novos postos de trabalho formais na próxima década, números que ecoam, em escala moderna, a atividade econômica perdida em 1946.
O Debate Atual: A Reabertura dos Cassinos no Século XXI
O tema “quem fechou os cassinos no Brasil” ganha novos contornos no século XXI com a reemergência do debate sobre sua legalização. Projetos de Lei (PL) como o PL 442/91, que propõe a regulamentação dos jogos, tramitam há décadas no Congresso Nacional. Os argumentos a favor, hoje, são majoritariamente econômicos e de segurança: geração de empregos, atração de investimentos turísticos de grande porte, arrecadação de impostos para saúde e educação, e retirada de um mercado bilionário das mãos do crime organizado. Por outro lado, os opositores, ainda liderados por segmentos evangélicos e alguns setores conservadores, repetem os argumentos morais da década de 1940, alertando para o risco de aumento da ludopatia (vício em jogos) e da desestruturação familiar. A experiência internacional, no entanto, fornece dados novos. Pesquisas do Instituto de Estudos de Regulação e Mercado apontam que em jurisdições com regulação forte, como Portugal e Espanha, a incidência de jogadores problemáticos é mantida abaixo de 1% da população, com programas de jogos responsáveis financiados pela própria indústria. O caso de Las Vegas, nos EUA, também evoluiu para um modelo de complexos familiares e de entretenimento diversificado, muito além das mesas de jogo.
Perguntas Frequentes
P: O fechamento dos cassinos no Brasil foi uma decisão apenas do presidente Dutra?
R: Não. Embora Dutra tenha assinado o decreto, a decisão foi resultado de intensa pressão de uma coalizão poderosa que incluía a Igreja Católica (com destaque para Dom Hélder Câmara), setores conservadores do Congresso e da imprensa, e as Forças Armadas. Dutra foi o agente executor político dessa vontade coletiva.
P: Os cassinos no Brasil eram ilegais antes de 1946?
R: Não, eram totalmente legais. Eles foram regulamentados e legalizados durante o Estado Novo de Getúlio Vargas, funcionando sob concessão federal e sendo uma fonte legítima de receita de impostos e turismo até a promulgação do Decreto-Lei nº 9.215 em 30 de abril de 1946.
P: Qual foi o principal argumento usado para justificar o fechamento dos cassinos?
R: O argumento oficial central foi a defesa da moral, dos bons costumes e da instituição familiar. O governo e seus apoiadores alegavam que os cassinos corrompiam a sociedade, incentivavam o vício e destruíam economias familiares.
P: O que aconteceu com os edifícios e a economia das cidades após o fechamento?
R: Muitos dos luxuosos edifícios que abrigavam cassinos entraram em decadência, foram demolidos ou adaptados para outros fins (como sedes de bancos ou repartições públicas). Cidades turísticas sofreram um forte impacto econômico negativo, com demissões em massa e queda na arrecadação e no fluxo de visitantes.
P: Existe a possibilidade de os cassinos voltarem a funcionar legalmente no Brasil?
R: Sim, é um debate ativo no Congresso Nacional. Vários projetos de lei buscam regulamentar os jogos, incluindo cassinos físicos e online. A discussão agora gira em torno de aspectos econômicos, de geração de empregos, segurança pública e regulação responsável, além dos persistentes argumentos morais.
Conclusão: Um Capítulo que Ainda Não se Encerrou
A pergunta “quem fechou os cassinos no Brasil” nos leva a uma jornada pela alma de um país em transformação. Mais do que um simples ato administrativo, o decreto de 1946 foi um sintoma de um Brasil que tentava se redefinir, escolhendo um caminho conservador e controlador em detrimento de uma via mais liberal e de entretenimento. As consequências dessa escolha ecoam até hoje, em um mercado de jogos clandestino, na perda de receita tributária e em um debate parlamentar que parece refletir, com novas roupagens, as mesmas dicotomias do século passado. Compreender essa história é fundamental para informar a discussão atual. Se por um lado os riscos sociais do jogo desregulado são reais e demandam atenção, por outro, o modelo da proibição total mostrou-se um fracasso, criando mais problemas do que soluções. O futuro dos cassinos no Brasil dependerá não de um único “quem”, mas de um amadurecimento coletivo da sociedade e de seus representantes, capazes de elaborar uma legislação moderna, segura e responsável que aprenda com os erros do passado e aproveite as oportunidades do futuro, sempre priorizando o bem-estar social e o desenvolvimento nacional. A bola, agora, está no campo da razão, do diálogo e da coragem política.

